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Eu nunca tive dúvidas.

Eu nunca tive dúvidas, nem por um segundo, nem mesmo apesar da criação que recebi, que, de certo modo, abominava quem eu sempre me entendi sendo.

Não, dúvidas, não. Em certos momentos, houve alguma revolta interna, alguns episódios de depressão, mas nunca houve dúvidas.

No fim, até essas coisas passaram. Para o bem ou para o mal, tudo sempre se resolve. Sempre. E apesar de não haver dúvida

s, existiam questões. Coisas para escolher. PlayStation e Xbox, Toddy e Nescau, homens e mulheres. Escolher nunca foi uma coisa que eu gostei de fazer, cada opção tem seu ponto, escolher é se limitar. Quando eu tinha 16 anos, comecei a namorar um cara, um amigo, ótima pessoa, engraçado, nunca brigávamos... Durou maravilhosos quatro anos.

Terminei com ele por um par de olhos.

Uma garota que eu sempre via, que parecia estar sempre em todos os lugares, orbitando minha vida, uma órbita de colisão. Ela era muito tímida, nunca sorria mostrando os dentes, estava sempre cercada de amigos e era sempre a que menos falava. Mesmo compartilhando vários círculos, nunca sequer fomos apresentadas. Tinha cabelo curto, um mimo, parecia um personagem de Steven Universe, era apaixonantemente diferente de tudo que eu estava acostumada. E puta que pariu, aqueles olhos. Não tinham nada a ver com todo o resto. Eram olhos escuros, felinos, que pareciam sempre encontrar os meus.

Propriamente, eu não larguei o namorado por ela. Não. Larguei por mim, que já não estava satisfeita com a relação e vivia inventando motivos para colocar defeitos nele, defeitos que ele aceitava mesmo sem ter, enquanto eu estava claramente atraída por outra pessoa. Olhando para trás, terminar era o melhor que eu poderia fazer por nós. Mesmo que por um tempo ele não tenha entendido isso.

Depois dele, dois meses se passaram sem ninguém, e foi ótimo, um período de amor próprio, libertação. Relacionamentos exigem muito, e eu sempre gostei demais da minha própria companhia. Ninguém além de mim mesma.

Então, um dia, indo ao cinema sozinha, eu senti aqueles olhos me queimando. Era mesmo muita coincidência ela estar sempre me olhando quando eu a notava. Eu fui ao cinema, comprei o ingresso e entrei na sala com a real intenção de assistir ao filme, mas não vi nada, tanto que voltei na semana seguinte. Mas o dinheiro daquele ingresso não foi em vão, ela apareceu. Entrou atrasada. A sala só tinha meia dúzia de gatos-pingados, ela parou no começo da escadaria, as luzes já estavam apagadas, e ficou procurando no escuro.

Eu sempre fui bem confiante, apesar de nunca ter sido nenhuma modelo, nunca esperei ninguém tomar iniciativa e sempre sou o polo positivo de todas as relações em que me envolvo. Mas, naquele dia, eu gelei. Meu corpo esfriou, ouvi o coração batendo acelerado. Ela me viu. Estava sozinha e, como eu já sabia que faria, veio se sentar do meu lado. Ela não disse nada, sentou em silêncio, colocou os óculos 3D. Olhou para a tela. Eu me acalmei. Como eu disse, não vi o filme, fiquei olhando pra ela por algum tempo, era bem visível, e não havia nenhuma forma de ela não ter notado.

Depois de dez minutos, eu percebi que ela estava nervosa, seu plano só ia até ali. O meu, embora tivesse acabado de ser criado, não, ele tinha várias etapas. Levantei o apoio de braço que separava nossas poltronas, tirei os óculos dela e beijei a garota.

Podia ter sido um tiro no pé, todos os sinais estavam lá. Mas às vezes todos os sinais estão errados, já tinha acontecido antes. Mas não dessa vez. Ela não foi minha primeira garota, mas tenho a impressão de que fui a primeira garota dela, embora ela não tenha parecido surpresa, nem tenha rejeitado meu beijo. Ela não sabia, por exemplo, o que fazer com as mãos. Mas eu sempre fui paciente, toquei seu pescoço e deixei minha mão deslizar pelo seu braço até chegar à dela para entrelaçar nossos dedos.

Ela beijava de olhos fechados, tinha lábios macios e tinha, sem dúvida nenhuma, mascado um chiclete antes de entrar naquela sala. Foi um beijo longo. Ela perdeu bem rápido suas hesitações e, antes de o filme acabar, já tinha passado a mão por metade do meu corpo. Quando os créditos começaram a subir, ela parou ofegante, olhando para a tela, as pessoas das outras fileiras começaram a se levantar, as luzes se acenderam. E, assim como apareceu, ela foi embora.

Não disse nem “até mais...” Na verdade, não disse nada, e depois que ela foi embora, me toquei de que não sabia nem seu nome. Eu poderia ser bem literária, quem sabe dramática, e ter saído correndo atrás dela, aos berros, declarando meu amor, mas nunca gostei de mentiras ou exageros.

Foi bem divertido, admito.

Excitante pra caralho.

E eu posso, inclusive, ter pensado nesse dia quando precisei me inspirar em prazeres solitários, entretanto, foi só isso. Eu a vi várias vezes depois desse dia, encarei descaradamente e posso até ter lançado alguns olhares sedutores, mas foi só isso.

Achei ela no Instagram um dia desses, através de perfis de amigos. Tinha começado a namorar uma garota. E fiquei bem feliz por ela.

Isso foi só uma introdução. A verdade é que essa história não é sobre mim nem sobre essa garota que beijava maravilhosamente bem. É sobre o cara com quem eu comecei a ficar depois dela. Eu já conhecia o indivíduo, éramos amigos de longa data. Apesar de ser meio chatinho e sabe-tudo, ele tinha, em quase todos os aspectos, um gosto muito parecido com o meu. O engraçado é que, no dia em que nos conhecemos, eu tive certeza total e absoluta de que ele era gay. Nem foi preciso uma pergunta, houve apenas uma constatação. Quando descobri que ele tinha namorada, meu queixo caiu e eu passei alguns dias arrastando ele por aí até me recuperar do choque.

Não vou entrar muito no assunto, o relacionamento dele era, sob muitos aspectos, abusivo e degradante. Não era amor. Amor não se parece nem um pouco com aquilo. Mas, uma semana depois de descobrir que eu era solteira, ele acabou ficando também.

Como eu já disse anteriormente, eventualmente tudo se resolve.

Depois da minha aventura, muito tempo se passou, quase um ano.

Estávamos os dois solteiros, disponíveis. Éramos amigos, e isso era bom. Fiquei com uns caras e umas garotas também, nada sério. Rolava sempre uma sacanagem dos amigos sobre sermos um casal por estarmos sempre juntos. E, uma hora ou outra, um clima começou a rolar, tipo uma bola de neve, e teve uma hora em que esse clima estava do tamanho de uma catedral gótica, a química entre a gente era palpável até para freiras.

Mas ainda assim eu resisti por meses. Éramos amigos, melhores amigos, e eu era covarde demais pra arriscar nossa relação. Entenda bem, qualquer um pode beijar, trepar, mas existe um tipo de afinidade e conexão que só dá pra ter com uma pessoa em mil, e, pra mim, a gente tinha isso. Fiquei com medo de estragar deixando as coisas estranhas. Mas nem toda resistência seria o bastante, um dia ele simplesmente chegou perto demais, e as pequenas engrenagens da minha mente deram uma travadinha.

E eu, sem pensar no que estava fazendo, embosquei ele como um guepardo caçando uma gazela nas pradarias. Ele nem teve chance. Antes do dia acabar, já tínhamos ido pra cama. Eu sei, sou uma promíscua. Obrigada, de nada!

Eu já tinha esperado demais.

Começamos a namorar na mesma semana, eu tinha sido idiota em minhas suposições, nossa relação não mudou, pelo contrário, ficou ainda melhor. Bom, em parte. Não lembro quando a sensação surgiu, mas um dia ela estava lá, a sensação de que algo estava errado, não comigo, e com certeza não com a gente, mas havia algo errado. Então eu cheguei à conclusão de que devia ser com ele. Apesar de tudo estar sempre ótimo, ele estava triste, sempre triste, infeliz, seu humor saltava e, às vezes, depois de um dia maravilhoso, ele simplesmente começava a chorar.

Caramba, eu não fazia ideia. Aquela velha percepção voltou. Ele era gay. Tinha que ser isso. Eu geralmente sou muito boa em saber essas coisas, nunca tinha errado antes. E, num primeiro momento, me doeu muito perceber que eu nunca ia poder fazê-lo feliz.

Mas eu nunca fui alguém que dê para chamar de egoísta. Então eu decidi ajudá-lo. Eu o confrontei, fui direta.

“Pedro”, esse era o nome dele, “acho que você é gay”. Ele sorriu, achou hilário, disse que eu era louca e depois me comeu. Foi um bom argumento, mas não me senti convencida.

Tinha que haver algo, e tinha que ser isso. A abordagem direta não rolou, tentei outras formas, apresentei uns amigos, uns caras gostosos, ativos, passivos, levei-o para conhecer gente da comunidade, mostrei uns filmes... Nada. Mas ainda havia alguma coisa errada. Então a resposta se revelou. Me senti tão burra. Tão insensível.

Caramba.

Um dia eu saí pra beber com uma amiga, ia dormir na casa dela, mas ela acabou se dando bem com um carinha e, como eu não tinha por que voltar pra casa, resolvi completar a noite na casa dele. Eu tinha as chaves, não era exatamente uma invasão, e eu mandei milhões de mensagens e até tentei ligar, mas ele não respondeu.

Eu entrei, tinha música tocando, estava bem alto, devia ser por isso que ele não me ouviu. Abri a porta do quarto e o vi parado, se olhando no espelho, usando um vestido roxo longo de alcinhas que não fechava nas costas, com o rosto pintado no que devia ter sido uma tentativa de se maquiar.

E ele estava chorando.

Como eu pude não ter percebido?

Pedro não era gay, ele era ela. Uma mulher.

Ela me viu no reflexo do espelho, tentou cobrir o corpo, feito alguém nu, ou sei lá. Chorou ainda mais alto, a ponto de soluçar. Caramba, que bagunça. Deixei a mochila no chão e andei até ela.

Ela me pediu pra sair, falou que eu não entendia.

Eu discordava, achava que entendia sim, e, de fato, anos mais tarde a gente concordaria nisso. Enxuguei suas lágrimas e falei o que ela precisava ouvir mais do que nunca, e o que sempre quis ouvir a vida inteira:

— Você está linda.

Então ela me contou sua história. Ela não sabia quando começou, ou se sempre fora assim, mas, para ela, seu corpo era uma prisão. Uma caixa de carne que não tinha nada a ver com o conteúdo. Quando ela era pequena, foi reprimida de todas as formas pelos pais: “Seja homem”, “Homens não choram”, “Homens são fortes”, “Isso não é coisa de homem”. A pressão só diminuiu depois da primeira namorada. E a atração por ela era real, assim como a atração por mim.

— Eu sou ainda mais estranha por dentro do que por fora — ela murmurou, enquanto eu tirava aquela maquiagem horrenda do seu rosto.

E nesse mar de sofrimento e dor, enquanto ela me revelava todo o seu peso, o peso que eu sentia diminuía, e, mais uma vez, todas as minhas perspectivas se expandiram.

O amor era isso, ele encontrava uma forma. Aquele cara, que, na verdade, não era bem um cara, bem, não importava. Aquele ser humano...

Continuava sendo incrível.

Amável.

Não tinha nenhuma barreira no mundo que me impedisse de ficar com ela. Homem, mulher. Eu não ligava. Não dava a mínima. No fim, as coisas sempre se resolvem, mesmo.

Não vou mentir. Deu muito trabalho convencê-la de que ela era normal. Que ela merecia ser feliz e ser o que quisesse, o que precisasse, que a opinião de ninguém importava mais que a dela.

Demorou muito para convencê-la a procurar ajuda médica. Mas eu continuei com ela, e a amei a cada estágio. A aceitação e todo o tratamento psicológico, os hormônios, a rejeição da família e dos amigos, o retorno daqueles que realmente importavam, a cirurgia, e, sem sair muito da realidade, acredito que dá pra dizer: o renascimento.

O nome dela hoje é Paula. Essa foi nossa história. São cinco anos de casadas, três gatos e um vira-lata de 25 quilos, além, é claro, de muito, muito amor.

 
 
 

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